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Nota: qual o papel do analista do comportamento na nossa cultura?

15 de Março de 2018

É muito comum ouvirmos que nós, analistas do comportamento, tendemos a ficar em nossas ilhas, nos mantendo presos as discussões de laboratório, isto é, voltados para discussões teórico-conceituais mais internas ao nosso campo. Embora essas atividades tenham sido e continuem sendo fundamentais ao desenvolvimento da nossa área, a visão mais ampla de B. F. Skinner envolvia entender que uma ciência do comportamento seria a base e a chave para que conseguíssemos pensar em transformar o ambiente social e cultural, de modo que pudéssemos contribuir para trazer soluções aos grandes problemas humanos. Esta é a pretensão da comunidade científica como um todo: buscar soluções para melhorar a vida humana.

Garret Hardin, em sua discussão sobre a chamada “Tragédia dos Comuns”, destaca que os maiores desafios da humanidade não podem, necessariamente, ser resolvidos com avanços tecnológicos de produtos físicos, mas envolvem principalmente debates éticos. Segundo ele, a ultra-ênfase no individualismo pode ser algo a nos levar a ruína.

Nosso campo vem crescendo bastante no Brasil, alcançando reconhecimento social em diferentes áreas de aplicação. Além disso, o reconhecimento do analista do comportamento, enquanto profissão, está cada vez mais próximo de se tornar uma realidade. Esses avanços são muito significativos para nossa área, mas quando olhamos para o desenvolvimento de uma identidade do analista do comportamento, não podemos nos ater apenas ao desenvolvimento de aplicações para questões aparentemente isoladas. Quando pensamos em uma identidade profissional, é preciso ter também a preocupação de pensar qual é o nosso papel na sociedade e na cultura.

Ontem amanhecemos com a notícia de um silenciamento covarde. O assassinato de Marielle Franco chocou o Brasil e o mundo, tanto por sua brutalidade quanto pelo seu alvo: uma ativista e lutadora por direitos humanos. E não direitos de poucos, mas direitos de coexistência entre pessoas com as mais diferentes histórias. Além do mais, ela era pesquisadora, estudiosa e cientista. Alguém que decidiu buscar o caminho da política como uma maneira de ajudar o máximo de pessoas.

Nosso país vem sendo assolado nos últimos anos por uma cultura de ódio que coloca brasileiros como inimigos de seus próprios amigos. O desenvolvimento dessa cultura foi desenhado e levado a cabo sem que fizéssemos nada. Este momento de luta nos diz que precisamos chegar ao ponto de não pensar mais em polos inimigos com molduras verbais de “direita” e “esquerda”, mas precisamos entender que como um todo, estamos sofrendo. Especialmente nós, analistas do comportamento, precisamos parar para refletir sobre qual o nosso papel neste desenvolvimento social.

Pensando em termos de evolução cultural, a diversidade, o debate, o diálogo e a democracia ajudam a propiciar variabilidade. Na impossibilidade, ou redução, da variabilidade, ficamos sujeitos a encontrar dificuldades de desenvolvermos soluções duradouras para nossos problemas. Na ABPMC temos procurado fomentar debates em torno de justiça social e políticas públicas, tema central do nosso Encontro do ano passado e, também, do que ocorrerá este ano. Se desejamos desenvolver políticas públicas sustentáveis precisamos atentar para sustentabilidade ambiental, social e econômica, sem deixar de considerar que justiça social deve fazer parte deste equilíbrio. Os valores democráticos de respeito as diferenças, diálogo, inclusão e rejeição de soluções violentas, são necessários para que possamos alcançar o desenvolvimento sustentável do bem público e de nossa sociedade. Devemos continuar sempre refletindo e buscando ações de como nós, analistas do comportamento, podemos contribuir para esse fim. E para isso não precisamos nos dividir politicamente. Precisamos nos unir como humanos e como cientistas, buscando usar o nosso conhecimento para ajudar ao outro e não como algo que resulta apenas em engrandecimento pessoal.

 

Convocamos nossa comunidade à reflexão e ao debate e que discutam e criem conosco. Vamos tocar o desafio?

 Diretoria Executiva da ABPMC – Gestão 2017-2018

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