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Artigo: Tratamento baseado na ABA (Análise do Comportamento Aplicada) x tratamentos “aba-like ”

19 de Fevereiro de 2018

Cintia Guilhardi
Artigo originalmente publicado no site comporte-se.

Com a disseminação do tratamento ABA para pessoas diagnosticadas com o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) percebo que muitos pais, terapeutas (profissionais da saúde e/ou da educação) e médicos acabam fazendo o uso desta sigla indiscriminadamente. Os pais vão em busca de tratamentos ABA para seus filhos diagnosticados no espectro e os terapeutas tentam corresponder à demanda de mercado denominando seus atendimentos como ABA. Os médicos, por sua vez, que prescrevem o tratamento aos seus pacientes, também acabam tendo dificuldade em identificar quais profissionais disponíveis no mercado fazem realmente o que esse tratamento tem de melhor a oferecer: Seu compromisso com a ciência.
No Brasil, temos uma problemática adicional: Não há um orgão que regule a formação de um profissional para atuar nessa abordagem. A grosso modo, cabe ao terapeuta o compromisso ético de cada um dizer se é capaz de realizar um tratamento de acordo com os preceitos dessa abordagem, ou não. E cabe, também, à comunidade de analistas do comportamento, divulgar a disciplina, seus preceitos filosófico, teórico, metodológico e aplicado.
Tenho visto, infelizmente, terapeutas que dizem fazer ABA, mas não sabem o que é o Behaviorismo Radical, tampouco o que é Análise Experimental do Comportamento e que, provavelmente, nunca leram um texto de Skinner. Terapeutas que, por pré-conceito e/ou desconhecimento da abordagem, dizem fazer um ABA “à sua maneira”, um “ABA light” (menos rígido?) ou que incorporam “algumas técnicas da ABA”, sem qualquer compromisso com a Análise Experimental do Comportamento. Já antecipo que isso não é ABA! E, se a ABA tem alguma rigidez, esta se refere às dimensões analítica, tecnológica e aplicada, indispensáveis à efetividade do tratamento.
Assim, com este texto, tenho como objetivo resgatar ao leitor os precursores da ABA: o Behaviorismo Radical e a Análise Experimental do Comportamento a partir das contribuições de B. F. Skinner (1938, 1945, 1953 e 1974). Ao final do texto, espero que meus leitores consigam diferenciar entre um tratamento fundado e pautado na ABA de um tratamento ABA-like (em outras palavras, “não ABA”).

O BEHAVIORISMO RADICAL
Na primeira metade do século XIX, a Psicologia era influenciada pela corrente mentalista de compreensão do comportamento humano: Existia uma mente (ou uma alma) causadora/impulsionadora das atitudes e comportamentos. Esses, por sua vez, eram expressos no mundo físico. Para acessar a faculdade mental era necessário recorrer à introspecção (olhar para dentro da mente e descrever o que lá ocorria).
Skinner (1945), influenciado pela fisiologia e pela teoria da seleção e evolução natural de Darwin desenvolveu uma filosofia da ciência própria para compreender e estudar o comportamento das espécies: O Behaviorismo Radical.
A fisiologia, nesta ocasião, estudava os comportamentos reflexos e explicava-os olhando para o ambiente, para os estímulos que antecediam o comportamento. Skinner ampliou a compreensão do comportamento humano quando definiu o comportamento operante. Para ele, além dos comportamentos reflexos, existiam comportamentos que não eram determinados única e exclusivamente pelos estímulos antecedentes: Existiam comportamentos, aliás, a maior gama deles, que eram sensíveis às alterações ambientais que ocorriam após a emissão dos mesmos. Alterações, estas, que tinham o papel de selecionar e fortalecer os comportamentos mais adaptativos em um dado contexto. Essa visão de comportamento foi fundamental para marcar um novo método para estudar o comportamento: Devemos olhar para as variáveis ambientais, que ocorrem fora do indivíduo, e entender a relação entre elas.
Ainda, para Skinner, nossos comportamentos encobertos (sentimentos, idéias, crenças), privados ou subjetivos (comportamentos que ocorreram no passado, por exemplo) também deveriam ser estudados dentro desta proposta. Assim, eles não teriam um status causal de outos comportamentos. Nestes casos, temos um acesso limitado aos eventos privados, mas eles também podem ser explicados dentro de uma análise de relações entre estímulos ambientais. A diferença entre um sentimento de “raiva” e um “empurrar alguém” está no grau de acesso que nós (comunidade) temos a eles e/ou podem ser estudados a partir da compreensão do comportamento verbal.
Esclarecida a questão do objeto de estudo (comportamento enquanto interação entre o organismo e o ambiente) e a questão do método de estudo (análise da relação entre as variáveis ambientais), falta esclarecer a questão sobre as causas do comportamento humano, até então explicadas por correntes mentalistas ou mecanicistas (os pensamentos e sentimentos, de natureza mental, causam os comportamentos de natureza física ou material). Skinner (1945, 1974) postulou que o comportamento é produto de três níveis de seleção: 1 ) da história genética da espécie, transmitida ao longo das gerações; 2) da história operante e individual de seleção de comportamentos a partir das consequências por ele produzidas e, por fim, nossos comportamentos são produto de nossa 3) cultura, dos conhecimentos acumulados e transmitidos ao longo das gerações.

A ANÁLISE EXPERIMENTAL DO COMPORTAMENTO
Esta nova compreensão de comportamento humano foi determinante para que Skinner delineasse seu novo método de estudo, dentro de uma proposta científica: A Análise Experimental do Comportamento (AEC) (SKINNER, 1938).
A AEC teve como objetivo investigar de maneira mais precisa e confiável as relações entre o comportamento e o ambiente e com isso conceitualizar e aprimorar as leis empíricas do comportamento.
A AEC tem como principais características: Cada indivíduo deve ser observado de maneira intensiva e sempre comparado com ele mesmo – metodologia do sujeito único (versus grupo de indivíduos); o experimentador pode confiavelmente demonstrar relações funcionais entre os comportamentos-alvo (VD) e os eventos manipulados (VI); a medida da VD é a frequência ou taxa de respostas; a VI (ou o procedimento) deve ter carácter tecnológico (descrito de modo a ser replicável); o contexto no qual o indivíduo é estudado, deve conter o mínimo de interferências possíveis, garantindo que as alterações na frequência das respostas sejam produto da intervenção (e não de outra variável não controlada) e também é determinante a apresentação dos dados em gráficos (versus análise estatística). (Matos, 1995).
Até a década de 60, os maiores propósitos dos cientistas da AEC eram produzir dados conceituais e metodológicos No entanto, a partir da década de 60, a AEC começou a ser aplicada para resolver problemas cotidianos. Uma nova disciplina foi, então, sendo estabelecida: A Análise do Comportamento Aplicada (ABA). (Kazdin, 1978).

A ANÁLISE DO COMPORTAMENTO APLICADA (ABA)
A aplicação da metodologia da AEC com o intuito de resolver questões cotianas foi batizada, pelo menos formalmente, como ABA em 1968 no capítulo inaugural da revista Journal of Appplied Behavior Analysis (Baer, Wolf e Risley, 1968).
A ABA propõe o mesmo desafio da AEC, ou seja, dar prosseguimento à utilização do método, mas para a área aplicada: A importância última é a relevância social e não a produção de conhecimentos teóricos ou novas descobertas. Todas as mudanças comportamentais produzidas a partir da tecnologia, são descritas em termos dos princípios comportamentais relevantes, à luz dos conceitos da Análise do Comportamento. Além disso, na ABA, há o compromisso com a generalidade das modificações comportamentais produzidas. Não adianta apenas demonstrar e modificar relações funcionais em um único contexto. As modificações devem se estender para os diferentes ambientes que as pessoas vivem, devem perdurar no tempo e devem possibilitar que novas habilidades possam continuar sendo desenvolvidas em prol de cada indivíduo.

Infelizmente, quando um terapeuta diz aplicar um “ABA light” ou “seguir algumas propostas da ABA, como por exemplo a aplicação de algumas técnicas da ABA”, acredito estar se tratando de um profissional oportunista. Não há como dispensar qualquer aspecto da ABA, sem prejuízo ao paciente. Não há o que flexibilizar! Ou você é analítico e consegue demonstrar relações de seus procedimentos com o comportamento-alvo ou você é charlatão. Não há “achismos” ou “impressões” na ABA; há verdades demonstráveis. Podemos, porventura, até não acertar o caminho de primeira (e os dados apontarão isso), mas devemos conseguir tomar decisões mais seguras a partir de então.
Em termos práticos, gostaria de alertá-los que a ABA envolve: Definição clara dos objetivos terapêuticos (o que se pretende ensinar e quais comportamentos deverão ser minimizados), descrição dos procedimentos que estão sendo implementados, registro sistemático de respostas-alvo, análise de dados apresentadas em relatórios, participação de todos os integrantes da equipe nas metas e procedimentos. Ainda, no caso do tratamento do TEA na primeira infância, 40 horas semanais de ABA (dentro e fora do contexto terapêutico). Para tanto, é indispensável a participação dos profissionais da escola, dos pais e cuidadores em todo o plano de trabalho.
Por fim, concluo, dizendo que todos têm o direito de escolher o tratamento que deseja ao seu filho ou do seu paciente. Mas se a escolha é ABA, não é honesto receber um tratamento ABA-like. Este último pode ter duas consequências irreversíveis: Primeiro, causar danos para a pessoa em tratamento e, segundo, produzir descrença e disseminação equivocada de um tratamento muito promissor. Intervenções baseadas na ABA têm sido consideradas tratamentos de primeira linha para o autismo na primeira infância (McEachin, Smith e Lovaas, 1993; Vismara e Rogers, 2010; Howard et al., 2014; Virués-Ortega, 2010), mas não do ABA-like!

Referências Bibliográficas:

Baer, D.M., Wolf, M.M. e Risley, T.R. Some current dimensions of applied behavioranalysis. Journal of Applied Behavior Analysis, 1, 91-97, 1968.
Howard, J. S.; Stanislaw, H.; Green, G., Sparkman, C. R.; Cohen, H. G. (2014). Comparison of behavior analytic and eclectic early interventions for young children with autism after three years. Research in Developmental Disabilities, 35, p. 3326–3344, 2014.
Kazdin, A. E. (1978). The emergence of behavior modification. In: History of behavior: experimental foundation of contemporary research. Baltimore: University Park Press, p. 151-185.
Matos, M. A. (1995). Behaviorismo metodológico e Behaviorismo radical. In: RANGÉ, B. (Org.). Pscicoterapia Comportamental e Cognitiva. São Paulo: Editorial Psy, p. 27-24.
McEachin, J. J., Smith, T. e Lovaas, O. I. (1993). Long-term outcome for children with autism who received early intensive behavioral treatment. American Journal on Mental Retardation, 97 (4), 359-372.
Skinner, B. F. (1974/2002). Sobre o behaviorismo. São Paulo: Editora Pensamento Cultrix LTDA.
Skinner, B. F. (1938). The Behavior of organisms. New York: Appleton Century
Skinner, B. F. (1945) The operational analysis of psychological terms. Psychological Review, 52, 270-277.
Skinner, B. F. (1953). Science and Human Behavior. New York: Macmillan.
Skinner, B. F. (1974). Sobre o Behaviorismo. Tradução de Maria da Penha Vilalobos. São Paulo: Cultrix.
Virués-Ortega, J. (2010). Applied behavior analytic intervention for autism in early childhood: Meta-analysis, meta-regression and dose-response meta-analysis of multiple outcomes. Clinical Psychology Review. 30, 387-399,
Vismara, L.A., Rogers, S.J. (2010). Behavioral treatments in autism spectrum disorder: what do we know? Annu Rev Clin Psychol, 6:447-68.

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