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Nota: a confusão entre Psicoterapia e Coaching na novela "O outro lado do Paraíso"

07 de Fevereiro de 2018

A pedido da ABPMC, o psicólogo, coach e doutor em Análise do Comportamento, Nicodemos Borges, elaborou a nota que se segue, comentando os acontecimentos recentemente retratados na novela "O outro lado do paraíso", exibida pela rede Globo. 

No último dia 02 de fevereiro, foi ao ar, na novela “O outro lado do paraíso”, uma cena em que a protagonista “Clara” (Bianca Bin) conversa com a advogada e coach “Adriana” (Julia Dalavia). O diálogo abriu discussões nas redes sociais por tratar de abuso sexual e de um suposto tratamento por meio de coaching e hipnose para o problema.

A Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC) é uma instituição que congrega psicólogos e profissionais de outras áreas interessados no desenvolvimento científico e tecnológico de práticas em Análise do Comportamento. Entre suas atividades, a ABPMC tem se dedicado também a prestar serviços de orientação à sociedade, sendo este o motivo da presente nota.

Entre nossos associados, temos profissionais que pesquisam e atuam como coaches (profissional que trabalha com coaching) e que dão cursos de formação para quem quer trabalhar com coaching. Trabalhar com coaching não quer dizer fazer terapia. Coaching é um tipo de intervenção comportamental que tem chamado a atenção da sociedade e que vê sua demanda crescente. Entretanto, não deve ser comparado à psicoterapia, pois tratam de procedimentos de intervenção voltados para diferentes públicos, dadas suas características.

 Como esclarece nota publicada pelo Conselho Federal de Psicologia sobre o assunto, “pessoas com sofrimento mental, emocional e existencial intenso devem procurar atendimento psicológico com profissionais da Psicologia, pois são os que tem a habilitação adequada.” Além dos motivos elencados na própria nota, como a robustez de conhecimento científico que suporta a prática de um psicólogo, acrescenta-se o fato de que coaching não é uma modalidade de intervenção destinada a pessoas em condição de sofrimento.

O coaching é uma modalidade de intervenção cujo objetivo é auxiliar a pessoa em seu desenvolvimento, não em resolver problemas comportamentais desenvolvidos na história do indivíduo. Para o último objetivo, a prática com validação científica mais robusta atualmente é a psicoterapia.

 Em relação à cena veiculada, além de gerar confusão ao vender a ideia de que coaches podem tratar problemas emocionais — quando não têm treinamento e formação para isso —, transmite também duas outras ideias equivocadas. Uma delas é que coaching e hipnose são a mesma coisa (ou que, pelo menos, se misturam), o que não é verdade, pois se tratam de duas técnicas distintas. E, a segunda, que coaching usa ferramentas mais rápidas.

Muitas das ferramentas de coaching surgiram na Psicologia e são frequentemente utilizadas por psicólogos clínicos (psicoterapeutas). Outras ferramentas vieram de outras áreas, como administração, engenharia, etc. Todavia, a despeito de suas origens, ferramentas devem ser entendidas como tal, como ferramentas, e suas utilidades estão diretamente relacionadas às necessidades em questão. Por exemplo, se eu preciso colocar um parafuso na parede, a ferramenta que me ajudará com mais rapidez será a chave-de-fenda, não o martelo. No entanto, se o objetivo for colocar um prego na parede, o martelo terá melhor eficácia e auxiliará num resultado mais rápido — a chave-de-fenda, de fato, seria de pouca utilidade. Portanto, as ferramentas não devem ser entendidas como mágicas e nem como eficientes para tudo. Elas são úteis ou não a depender do objetivo em contexto.

Um último aspecto que merece a atenção da sociedade é o objetivo que controlou a veiculação da cena. Segundo apurou matéria da Veja, tratou-se de uma inserção promocional (merchandising) de uma empresa de treinamento de coaches, o que explica a menção do nome de seu dono como se fosse “o principal coach do Brasil”. Fica, portanto, o alerta para que se tenha cautela com o consumo automático e impensado de ideias difundidas nos meios de comunicação.

 

Nicodemos Borges

Psicólogo-coach, pesquisador e professor universitário

Doutor em Análise do Comportamento pela PUC-SP

 

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